JUSTIFICATIVA
Instalação coreográfica de Regina Miranda,
tendo como tema o antigo sobrado aonde se situa a sede da COMPANHIA
REGINA MIRANDA E ATORESBAILARINOS. Este belo sobrado do século
XIX, é parte da história da Rua Alice, tradicional
rua do bairro de Laranjeiras, tendo começado como "casa de
família" e passado a "casa de cômodos", como permaneceu
durante muitos anos. Sua arquitetura guarda, portanto, muitas memórias
(que foram preservadas na reforma feita para uso da Companhia),
com as quais dialogamos e sobre as quais projetamos e reinventamos
estórias.
A comunidade de Laranjeiras, bairro aonde se situa a sede é
também uma das poucas comunidades do Rio de Janeiro que ainda
conserva uma característica de pequeno bairro, aonde todos
se cumprimentam e se conhecem, partilham estórias e memórias
e se encontram para (re)contá-las nas portas dos sobrados
que fazem a beleza do bairro e, particularmente da Rua Alice, uma
das mais famosas ruas de Laranjeiras, antiga rua das "casas de prazeres"
(a famosa "Casa Rosa"), como a ela se referem os mais antigos moradores
e hoje lugar aonde se reúnem diversos artistas e instituições
de arte e cultura.
Assim, assumindo um método de composição etnográfico,
caminhando e conversando entre bailarinos e figuras locais anônimas,
estaremos documentando este cotidiano interno e externo que retém
o tempo, estaremos extraindo traços significativos de seu
contexto original e confrontando-os a outros, provenientes de um
mesmo contexto ou de contextos associados.
Através de entrevistas dentro da comunidade que nos circunda,
nosso trabalho estará baseado no que "move" estas pessoas,
sem, no entanto, transcrever situações deste "real".
RUA ALICE, 75- Quartos de Aluguel é uma elaboração,
um deslocamento, uma metaforização e fragmentação
do "real passado", articulado ao presente através do relato
e de uma corporificação em colagem, que re-escreve
o real. O danarino irá adquirir, através deste método
de composição, um corpo individualizado, carregado
de subjetividade, um corpo comum, de experiências compartilhadas.
Enquanto Companhia., ao retratar poeticamente o bairro em que nos
inserimos, estaremos nos integrando e reinventando o nosso contexto
urbano.
Este trabalho segue a linha de instalações coreográficas
que vêm caracterizando a Companhia desde 1983, quando elaboramos
tá com fome? Nao tou com febre numa loja de móveis
antigos da Rua do Lavradio. A esta instalação seguiram-se
muitas outras, como S.Thala na Fundição Progresso
e A Divina Comédia que, ocupando todos os espaços
internos e externos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e
congregando 146 atores-bailarinos, é considerado um marco
na historia das artes cênicas do Rio de Janeiro.
Dessa forma, como novos membros desta comunidade, estaremos nos
posicionando em relação a ela, observando-a, interpretando-a
e simultaneamente transformando esta comunidade e suas circunstâncias
atravês do processo artístico de devolução
de um texto, que agora se rearticula e se corporifica em dilogo
constante com o texto rememorado.