
Os quartos
incômodos de Regina Miranda
De
volta ao Brasil após três anos em Nova York, coreógrafa
faz espetáculo numa casa de cômodos em Laranjeiras
e defende a dança não convencional
ANA CECÍLIA MARTINS
Durante o pouco tempo em que pára encostada na porta
da sede de sua companhia de dança, em Laranjeiras, a coreógrafa
Regina Miranda logo recebe o cumprimento de uma moradora local.
''Como vão as coisas? E o trabalho, está indo bem?'',
pergunta a senhora. Regina responde que sim, feliz com o clima
amistoso e familiar que se instaurou na Rua Alice desde que ela
e sua trupe estrearam Quartos de aluguel, espetáculo baseado
no cotidiano das casas de cômodo do bairro. Agora, Regina
e os bailarinos conhecem o rapaz da mercearia, o dono do açougue
e a senhora que vende doces na esquina, dona Raimunda, uma ex-cantora
lírica que participa da nova criação cênica.
Aos 53 anos, Regina Miranda se sente mais ligada a Laranjeiras,
ao Rio, ao Brasil. Depois de uma temporada de três anos
em Nova York, onde ainda dirige o Laban/Bartenieff Institute of
Movements Studies, centro de referência da dança
contemporânea mundial, a carioca está de volta à
cidade natal. Motivos não faltam: a consolidação
do trabalho de sua companhia, projetos sociais que desenvolve
na Gamboa e a abertura do Centro Coreográfico do Rio, previsto
para maio e que funcionará sob sua direção.
Ao entrar no sobrado da Rua Alice - sede da Cia. Regina
Miranda e Atores Bailarinos e palco do espetáculo -, a
sensação que se tem é a de estar penetrando
em um reduto íntimo. A proposta do espetáculo é
mesmo intimista. Um público de 30 pessoas percorre os diversos
cômodos da casa, onde os integrantes da companhia e jovens
bailarinas moradoras da Gamboa encenam textos e movimentos baseados
em obras da literatura brasileira e com gente comum. Trata-se
de um espetáculo vivo. ''O espectador está próximo
da ação e tem um postura ativa e participante'',
avalia Regina. ''Os atores bailarinos por sua vez não sabem
ao certo o que vai acontecer, num estado permanente de alerta
e criação espontânea, apesar de a grande maioria
dos movimentos serem marcados.''
Integração - Não é a primeira
vez que Regina Miranda aposta na itinerância de sua arte.
Na verdade, fazer espetáculos participativos e em lugares
não convencionais é uma idéia abraçada
por ela desde 1983, quando dançou com sua companhia numa
loja de móveis antigos na Rua do Lavradio, no Centro. A
proposta prosseguiu em A divina Comédia, trabalho que sacudiu
o Museu de Arte Moderna (MAM) em 1991, misturando teatro, dança
e literatura. ''A palavra sempre foi muito importante no meu trabalho.
Todo mundo sempre me disse que sou uma bailarina muito verbal.
Para mim, a palavra está embebida de fisicalidade'', afirma
a coreógrafa.
Quartos de aluguel traz fragmentos de textos de Nelson Rodrigues,
João do Rio e Aluisio Azevedo. ''É o espetáculo
mais verbal da minha carreira'', atesta. ''Mas não posso
esquecer que os moradores das casas de cômodos de Laranjeiras
são os co-autores desse espetáculo. Foram eles que
forneceram grande parte dos textos corporais e verbais que apresentamos.''
Contabilizando mais de 20 anos de carreira, Regina Miranda
tem idéias amadurecidas. A troca de informações
artísticas, a pluralidade de linguagens e a participação
social nas artes são premissas de seu trabalho, presentes
nos espetáculos de sua companhia, no projeto que desenvolve
com jovens na Gamboa, ou na direção do Centro Coreográfico
do Rio de Janeiro. ''A integração das diferenças
e a preservação de múltiplos discursos são
vigas mestras do Centro, que se propõe a ser um fórum
permanente de discussão e produção de novas
linguagens para dança'', afirma Regina, que criou as bases
do projeto alavancado pela Secretaria das culturas do Rio.
Fábrica - Em maio o centro já começa
a gerir algumas atividades. ''No começo do primeiro semestre
de 2002, vamos colocar no ar o nosso website para começar
a trocar informações com centros coreográficos
internacionais'', diz. Quando chegar a hora de se mudar para a
antiga fábrica da Brahma, na Tijuca, que irá abrigar
o Centro Coreográfico, sua companhia vai continuar em ação,
tendo à frente a bailarina Marina Salomon, e os outros
sete integrantes.
A sede da companhia serve como local de ensaios, apresentações
e também como um braço do Laban, oferecendo cursos
que são pré-requisitos do instituto internacional.
''Em 2003, devemos nos transformar no primeiro centro Laban autorizado
na América Latina'', avisa. Até lá, incansável,
Regina traz ao Rio as idéias que movimentam o mundo da
linguagem artística não-verbal, no encontro internacional
Laban que acontece entre os dias 1° e 4 de agosto de 2002,
levando para o MAM carioca debates teóricos, workshops
e pequenas apresentações com artistas internacionais.
''A arte precisa de diálogos permanentes'', afirma Regina.

Journal do Brasil
dez. 16, 01